A otite média (OM), inflamação da mucosa que reveste a orelha média, é frequente na prática pediátrica e uma das principais causas de consultas médicas, uso de antibióticos e intervenções cirúrgicas na infância. Embora a maioria dos episódios evolua de forma autolimitada, uma parcela pode resultar em complicações crônicas e prejuízos à qualidade de vida das crianças e suas famílias, configurando relevante problema de saúde pública. Além dos fatores de risco bem estabelecidos de OM, como anormalidades craniofaciais, prematuridade, baixo peso ao nascer, a literatura também aponta para fatores protetores, como as vacinas pneumocócicas conjugadas (VPC) contra o Streptococcus pneumoniae e o aleitamento materno. Em 2010, a vacina pneumocócica conjugada 10-valente (VPC10) foi introduzida no Programa Nacional de Imunização brasileiro, representando um avanço na saúde pública, proporcionando proteção contra doenças pneumocócicas invasivas (pneumonias bacterianas, meningite e sepses) e não invasivas (sinusite, OM, bronquite e pneumonia). Contudo, poucos estudos de base populacional foram desenvolvidos no Brasil, a fim de avaliar o impacto da VPC sobre a ocorrência de OM na infância. Adicionalmente, não foram identificados estudos nacionais que examinem o papel do aleitamento materno na prevenção de OM em populações infantis imunizadas com VPC. Assim, essa tese objetivou descrever a prevalência e os fatores associados à pneumonia na primeira infância, utilizando dados da Coorte de 2015. Também, avaliou o impacto da VPC10 sobre a OM e investigou o papel protetor do aleitamento materno em contextos de alta cobertura vacinal, utilizando dados das Coortes de 2004 (antes da introdução da VPC) e 2015 (após a introdução da VPC). Para tanto, três artigos científicos compõem essa tese. O primeiro, teve como objetivo descrever a prevalência e os fatores associados à prevalência e recorrência de pneumonia em crianças de 0 a 6 anos, após a introdução da VPC no calendário vacinal brasileiro. Observou-se que quase uma em cada cinco crianças aos 6 anos apresentou histórico de pneumonia, principalmente no primeiro ano de vida, sendo a maior paridade materna o fator mais forte e consistente associado à maior prevalência de pneumonia na infância. O segundo artigo buscou mensurar o impacto da PCV10 na ocorrência de OM dos 6 aos 12 meses e no segundo ano de vida, utilizando dados da Coorte de Nascimentos de 2004 (antes da VPC) e de 2015 (após a VPC). Os resultados mostraram um impacto positivo da PCV10 contra a OM entre 6 e 12 meses de idade. Esse efeito não foi observado no segundo ano de vida, mas observou-se que a VPC10 reduziu o risco de OM no período de maior suscetibilidade à doença, que são os primeiros 12 meses de vida. Por fim, o terceiro artigo investigou o papel do aleitamento materno como fator de proteção contra OM em contextos com alta cobertura vacinal com VPC10. Foi observado que o aleitamento materno permanece como fator protetor independente contra OM nos primeiros dois anos de vida, mesmo após a introdução da VPC10 no calendário nacional. A persistência do efeito protetor sugere que a amamentação atua de forma complementar à vacinação na prevenção da doença. Por fim, os resultados mostraram que a maior paridade materna e prematuridade indicam maior risco de pneumonia. Houve impacto positivo da PCV na prevenção da otite média no primeiro ano de vida. O aleitamento materno permaneceu como fator protetor de OM independente nos dois primeiros anos, mesmo com alta cobertura vacinal.